segunda-feira, 27 de abril de 2015

Além das aparências...

Eu sou linda, e você?



 "Eu sou bonita?" Essa foi a pergunta que uma aluna me fez. Uma simples pergunta que me fez repensar (acredite, eu já havia pensado sobre isso várias vezes) no motivo daquelas meninas gêmeas chegarem à minha turma de 3º ano com tanta dificuldade. Vieram de outra escola, não sabíamos muito sobre elas...

 No começo fiquei assustada. Como assim? Nem cores, nem o alfabeto, tinham dificuldade com os próprios nomes. Havia algo errado. Será a visão? Será neurológico? Será o quê??? Pensávamos... E eu mais ainda.

 Com a confiança vieram as conversas, os desabafos e as peças foram se encaixando. 

  Sofreram bullying, situações difíceis... Os detalhes não cabem, mas foi o suficiente para desviar toda a atenção da aprendizagem; elas tinham mais com o que se preocupar. 

  Assim, em meio à roda do afeto, hora da leitura, meu sonho e todas as outras atividades que já estavam dando resultado, iniciamos a leitura do livro "Quem é linda?" de Valéria Belém.



 Foi como uma mola propulsora. O livro não fez isso sozinho, mas as conversas diárias, as trocas, as crianças pedindo desculpas umas às outras por "cometerem bullying", sim. Foi um trabalho de escuta. 

 Uma parte interessante em meio as produções, matemática e tudo mais, foi a construção coletiva de dois cartazes. 

 No primeiro pedi para os alunos recortarem fotos de pessoas lindas: o nível das figuras foi de Gisele Bündchen pra lá.


 Então conversamos sobre o livro. Linda, a menina da história, era bonita por fora, mas suas atitudes não eram tão belas. Levei os alunos a pensarem que a beleza exterior pouco importa, o que vale é o que somos.

 Depois da conversa, novos recortes. Então começaram a colar fotos de pessoas  idosas, negras, deficientes... Incrível! A mudança de pensamento foi real.


                                       


 Resumindo: depois da valorização, de saber que eram capazes, de choros e desabafos, elas começaram a aprender. Estavam numa nova casa, numa nova escola, com pessoas que acreditavam nelas. Agora, era só respeitar o tempo de cada uma, pois já se sabia que o processo seria lento.

 Fechamos esta "aventura" com um desfile. Não era pra comprar roupa nova, nem nada demais. Era para usarem a melhor roupa que tinham, aquela em que sentiam-se lindos. E assim foi!







 Tenho tanto pra contar dessa história... Mas terminando por aqui conto as novidades: as meninas terminaram o ano no processo de alfabetização, uma já estava lendo. Hoje, no quarto ano, elas vêm me mostrar os cadernos e os avanços. Sempre visitam minha sala e compartilham suas conquistas!

 E eu, neste constante aprendizado, digo que não somos neutros em sala, não há como não se envolver. Vamos marcá-los de uma forma ou de outra...

Então que seja da melhor forma possível!!!

Obrigada pela visita e até mais!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Matemática na prática I

Sistema monetário o ano todo!!!



 Acho essa ideia maravilhosa, uma das formas de trabalhar o sistema monetário mais interessantes que já vi. Ideia da professora Érica que fez o PACTO comigo no ano passado. Na mesma hora que ouvi o relato dela, pensei: É isso! Excelente!!! 

 Ela trabalhava o sistema monetário diariamente e não como o conteúdo de um bimestre, como eu ainda fazia. Pagava diariamente os alunos por suas tarefas e descontava quando necessário. Ao final do ano, com o dinheiro que eles conquistavam, ela fazia uma grande venda com doações e brinquedinhos. Os alunos estavam em contato com o dinheiro todo dia, faziam trocas, contavam para ver quem tinha mais, subtraiam quando perdiam... Genial!!!
  
 Fui pra escola no outro dia e comecei a planejar as aulas, mas faltava um livro nessa história toda. Então lembrei de um que tinha lido na minha adolescência:


 Como a história é bem grande, cada dia eu contava um capítulo. Contava mesmo, não lia, pois a leitura era cansativa pra eles. Seguia o enredo da novela, só que de forma bem resumida! 

 E no decorrer da contação, fomos cortando as cédulas e moedas do livro, conversando sobre elas, analisando e produzindo textos... 

 Esse foi sobre a utilidade do dinheiro, queria saber o que eles pensavam sobre o assunto...



 Esse outro foi para saber a noção que eles tinham sobre o valor do dinheiro. O título era: "Com mil reais eu..." 


 A cada produção nós íamos corrigindo ortografia, pontuação, estrutura; individual e coletivamente também.

 Optei por fazer o pagamento semanal, toda sexta. O aluno que cumpria todas tarefas e também tinha um bom comportamento ganhava 10,00 reais. A cada "infração" perdiam 1,00 real. Tinha criança que ganhava todo dinheiro e sempre tinha um que saía com apenas uma moedinha.
     
 O interessante é a motivação, a gente não precisa ficar pedindo pra contar, pra comparar valores, eles fazem isso automaticamente. Quando juntavam duas notas de 10, pediam para trocar por uma de 20 e assim meu trabalho era mediar seus conhecimentos.

 Fiz dois momentos para as compras. Um foi a venda de pipoca. Fizemos cartazes com os preços e cada aluno ficava no caixa um pouquinho.




 O outro foi a venda final, onde eles  gastaram todo o dinheiro que tinham. 


 Para fechar, fizemos a releitura da obra de Domingos Pellegrine em forma de texto coletivo. Assim eles ficaram com o livro para ler quando quisessem.


 O melhor quando a gente compartilha uma ideia é que ela não está engessada, nós podemos dar a nossa cara, acrescentar, tirar, adaptar e no fim, mesmo com um pouquinho de trabalho, quem ganha são os alunos. E isso é o que importa!!!

Então, vamos compartilhar!!!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Roda do afeto

Uma experiência única


  Minha turma do ano passado foi a que mais me ensinou nesses anos de caminhada, acho que aprendi mais com eles, do que eles comigo... 
  Sabe quando você precisa olhar além das aparências, além das condições sociais, da agressividade e enxergar crianças; foi assim, meu exercício diário. Era preciso mudar hábitos antes de alfabetizar...
  E, um dia, estudando sobre afetividade, pensei... Porque não? Pode dar certo! E deu!!!
  
  Começamos, então, a roda do afeto. Afeto? Palavra estranha, eles nunca tinham ouvido falar. Mas o dicionário serve pra isso. Significados esclarecidos, fomos para prática.
  
   A ideia era que toda manhã, antes de abrir cadernos e livros, dedicássemos um tempo uns aos outros. No início foi bem difícil...Mas depois de poucas semanas não era mais preciso pedir que se sentassem na rodinha.



  Cada um que se sentisse à vontade poderia compartilhar, por meio da escrita e desenhos, algo que estivesse sentindo naquele dia ou escrever para um amigo. Escrito o bilhetinho, colocavam-no na caixa que enfeitamos na sala.




Na hora de compartilhar eu lia os bilhetes. Ali as crianças falavam sobre alegrias, tristezas, episódios engraçados, momentos difíceis que estavam passando e tudo que quisessem escrever. 



   Muitas vezes foi um momento ímpar. Crianças escrevendo bilhetes para as outras: " Estou pedindo a Deus para você aprender a ler logo, nós vamos te ajudar!", são um exemplo da mudança de atitude na turma.

   Algumas vezes nos emocionamos, outras rimos até chorar. E assim, os que não escreviam no começo, passaram a compartilhar seus sentimentos também. Expressões como " eu te amo", " você é meu melhor amigo" eram frequentes. 


   Eles escreviam com gosto. Escreviam e liam todos os dias sem cobranças, nem imposições, mas pela vontade de participar do momento. Eu também escrevia para eles, incentivando, contando experiências, puxando orelha...




  Começamos essa prática no inicio do 2º bimestre e fomos até o final do ano, quando cada um levou os recadinhos que tinham recebido para casa, como uma lembrança dos bons momentos.
   
  Os endereçados a mim, estão aqui. Um potinho de maionese que tem muito à dizer!

                                                       

  
  

 Além de ajudar no relacionamento e estreitar laços, a escrita deles melhorou, pois sutilmente eu ia corrigindo os erros frequentes. E  eles tinham que ler o que escreviam para ver se estava correto.

 Bons aprendizados para mim e para turma!


 Toda relação é uma relação de afeto, cabe a você decidir se vai afetar o outro de uma forma boa ou ruim. Duzentos dias com um aluno é o suficiente para fazer parte da história dele! Marque esses dias com boas lembranças!!!

domingo, 12 de abril de 2015

Por que um blog?

Professora, eu???



  Posso dizer, convictamente, que essa profissão me escolheu. Nunca pensei em fazer o curso normal, mas minha mãe sim! Na verdade Deus já tinha um caminho preparado, bem além do que eu conseguia enxergar naquela época.

   E quanto mais eu estudo, mais me sinto atraída por esse processo de ensinar e aprender. Hoje fazendo minha pós graduação, as ideias saltam na minha mente numa velocidade tão alta,  que nem mesma eu consigo acompanhar! 

  E a área que mais gosto e muitos sabem, é a alfabetização, o letramento, a aquisição da leitura e da escrita...Chame como quiser, independente de conceitos, é maravilhoso acompanhar uma criança aprendendo a ler e escrever.


  Ensinar a leitura e a escrita não tem nada a ver com repetições cansativas, com cópias intermináveis, com folhinhas aos montes, cheias de B com A, BÁ; mas  refere-se ao criar condições para que a criança construa seu conhecimento, para que ela esteja em constante processo de fazer e desfazer associações. 


O aluno precisa pensar sobre a leitura e a escrita, só assim ele avança. E nós precisamos respeitar o seu tempo, observá-lo, conhecê-lo e acompanhá-lo. Estar atentos ao que ele necessita. Sabe, não adianta querer que um aluno silábico escreva textos perfeitos, mas também não se pode pensar que ele não escreva nada.

  
  Outra coisa que tenho aprendido é que método ainda é algo muito valorizado, parece que se você não tem um, está perdida! Na verdade,  e eu já comentei sobre isso aqui http://numconstanteaprendizado.blogspot.com.br/2015/03/alfabetizacao-por-onde-comecar-uso-um.html, sabemos que cada criança aprende de um jeito distinto, então porque ensinar apenas de uma maneira?

 Por isso o blog, aqui posso exercitar meus pensamentos,  compartilhar experiências e trocar com pessoas que também amam ensinar.

   Vamos lá, deixe sua opinião. O que sua prática tem lhe ensinado? O que você tem aprendido com seus alunos? 


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Alfabetizando com receitas II

Sopa de letrinhas!!!



  Fazer sopa de letrinha na escola não é nenhuma novidade, mas eu nunca havia feito antes. Então foi uma experiência nova pra mim e minha turma! 

  Iniciei essa semana com o texto " Ana Bela Comilona" de José de Nicola. No primeiro dia trabalhei a estrutura do texto e a interpretação.

 Ana Bela Comilona

Ana Bela Comilona
come tudo o que vê.
Basta ligar a TV
nhac, nhac, nhac.
Era uma vez
a bolacha,
a pipoca
ou qualquer outra maçaroca.
Ana Bela Comilona
só não era muito sabichona.
Na mesa, entendia de tudo
na escola, nada de ABC.
Sua mãe pensou, pensou, pensou,
até que - Opa!
A solução estava na sopa.
Ana Bela Comilona
logo aprendeu o ABC
comendo o prato repleto
com as letrinhas do alfabeto.



    No segundo dia trabalhamos com as palavras do texto.



   Quando trabalhamos a ortografia dentro de um contexto é mais fácil para criança. Para os alunos em processo de alfabetização essa dinâmica torna a aprendizagem mais significativa.





   Neste mesmo dia, à tarde, fizemos a receita. Cada criança fez sua parte: um lavou, o outro cortou, outro mexeu...E assim foi surgindo a sopa.


   Desta vez optei por outras atividades, porque já tínhamos no cartaz, como referência,  a receita do brigadeiro de colher, http://numconstanteaprendizado.blogspot.com.br/2015/04/brigadeiro-de-colher-durante-as-ultimas.html. Uma delas foi a escrita de palavras com as letrinhas do macarrão. Enquanto a sopa cozinhava, fomos escrevendo.


                                              

     

   
  No terceiro dia trabalhamos a matemática no texto. Procuramos os preços dos ingredientes nos encartes, fizemos comparações e probleminhas. A atividade serviu, também, para sondar o que os alunos sabiam à respeito do nosso sistema monetário. Neste dia fizemos uma produção de texto bem legal!
        

  A proposta foi substituir o nome da personagem pelo deles e escrever sobre o que cada um gostava de comer.  Hoje a aula começou com essa leitura, feita pelo próprio "João Comilão"! 
    





 Escolhi essa produção por ser de um aluno que está no nível silábico-alfabético, numa transição. Ele já usa sinais de pontuação e começa a estruturar seu texto, mas ainda aglutina palavras e omite letras.

  Corrigimos o texto, coletivamente, no quadro e depois trabalhei as palavras com "ÃO". A aula ainda vai se estender até semana que vem, quando vamos começar a falar da alimentação saudável.


  Gostaram? Espero que sim! Até mais!!!

sábado, 4 de abril de 2015

Alfabetizando com receitas I

Brigadeiro de colher

    Durante as últimas semanas trabalhei os sentidos com os alunos, à cada dia falávamos um pouco sobre o assunto, intercalando com outros conteúdos. Acredito que é mais fácil assim do que trabalhar determinado assunto uma única vez e pronto. As crianças aprendem de maneiras diferentes, em ritmos distintos, e por isso necessitam de estímulos diferenciados.
     Estava à procura de um livro para introduzir o assunto, e lembrei dessa história:


    Fiz a leitura com eles e propus uma produção de texto individual, trabalhei o som do "CH" e iniciei uma conversa sobre os sentidos. 
  No outro dia um dos alunos leu sua produção para a turma, trabalhei o conteúdo dos sentidos no quadro, com o nome e função de cada órgão e fizemos um cartaz. 



    
    Então surgiu aquela imagem do brigadeiro, na parte do cartaz que representava o paladar e  as crianças não pensaram mais em outra coisa. Surgiu a ideia: - Vamos fazer brigadeiro? A resposta unânime foi: - SIM!!!
    Marquei com eles no calendário um dia da outra semana para fazermos a receita e foi o que aconteceu.
   Antes de chegar o dia marcado, fizemos outras atividades relacionadas ao assunto: em folhinhas, no livro e assistimos uma peça do 5ºano, representando a leitura do Chapeuzinho Borbulhante. Eles estavam trabalhando o tema também. Lá na escola é assim, uma turma sempre apresenta peças, exposições e palestras para as outras, numa forma de compartilhar e consolidar a aprendizagem.





     A semana passou, mas a ansiedade do brigadeiro não... 
     Começamos o dia lendo este livro:


   E depois foram só risos, caras e bocas estranhas e muita diversão. Levei alguns alimentos para sala, vendei os alunos e eles tinham que descobrir o que era cada um. O gengibre ninguém acertou...



   Chegou a hora tão esperada. Cada um fez sua parte na preparação. E o dever no quadro nem foi problema, fizemos uma produção coletiva da receita e alguns probleminhas envolvendo os brigadeiros. Nunca fizeram o dever tão rápido!



       Passei a receita para o cartaz e no dia seguinte a aula começou com ela, fizemos a análise e trabalhei durante a semana o "BR" nas palavras (no quadro, no alfabeto móvel, em forma de desafio). Depois,  fui trabalhando outros encontros consonantais do R. 






    Resultado: Trabalhei vários conteúdos, alguns alunos silábicos já estão em transição, treinamos a ortografia, houve participação de todos e mesmo dando um trabalhão eu também me diverti.

    Semana que vem vamos fazer sopa de letrinhas...
    Até a próxima!!!